Os personagens da diretora Julia Ducournau passam por transformações físicas extremas. Em “Grave” (2016), há o canibalismo; em “Titane” (2021), a fusão com o metal; e, em “Alpha”, uma doença transmitida pelo sangue faz com que as pessoas enrijeçam aos poucos e se transformem como que em estátuas de pedra. Essas figuras que vão enrijecendo, contorcidas em seus leitos, são terríveis e, ao mesmo tempo, evocam uma beleza peculiar. O que comove especialmente em “Alpha” é a relação singular que nasce entre Alpha, uma adolescente que acredita estar infectada, e seu tio materno Amin, um dependente químico doente. Para interpretar Amin, Tahar Rahim perdeu peso a ponto de ficar irreconhecível, com uma aparência diferente da de “O Profeta” (2009) e “Monsieur Aznavour” (2024), e entrega uma atuação intensa. Ele retrata com delicadeza um marginalizado que caminha em direção à morte e torna impossível odiar Amin, que, embora sofra com a dependência, é essencialmente bom. As imagens e os temas são muito intensos e implacáveis, mas “Alpha” é, acima de tudo, um melodrama comovente que traz a mensagem de que devemos preservar nossa humanidade mesmo em um mundo em meio ao caos.